April 24, 2014 | by William Easterly Print

O ocidente que se solidariza com a Ucrânia deve se surpreender ao saber que o governo americano apóia autocratas pró-Rússia contra seus opositores, em outros países da ex-União Soviética.

Um deles é o Tajiquistão, há tempos um feudo do ditador Emomali Rahmon. O auxílio financeiro americano dado ao Tajiquistão desde que o presidente Rahmon assumiu o poder em 1992 já ultrapassa 1 bilhão de dólares. Auxílios financeiros de doadores ocidentais totalizam quase 10% da economia do Tajiquistão e cobre a maioria dos gastos de um governo cuja repressão brutal sobre a oposição foi condenada, mais uma vez, em um relatório do Departamento de Estado americano publicado no início de abril.

O Tajiquistão ilustra um fenômeno mais amplo, no qual as ajudas ocidentais acabam do lado errado da batalha pela liberdade e a democracia. Alguns filantropos e agências de ajuda humanitária agem como se acreditassem que “autocratas benevolentes” podem ser forças em favor do desenvolvimento econômico. Embora tenham boas intenções, esses atores humanitários ignoram abusos, e dão crédito a esses mesmos governantes por qualquer coisa positiva que aconteça enquanto estiverem no poder.

Reflitamos sobre a Etiópia, país do pelotão de trás nos rankings que medem direitos e liberdades. Em 2010, a Human Rights Watch documentou como o governante etíope da época, Meles Zenawi, retinha sistematicamente recursos para alivio da fome, advindos de ajudas internacionais, destinados a quem não pertencia ao seu partido. Os doadores desses recursos, como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USaid) e o Banco Mundial, prometeram uma investigação, mas as promessas não deram em nada.

Meles, morto em 2012 em decorrência de uma doença, ignorou os direitos dos etíopes enquanto governou, tendo matado manifestantes depois das eleições fraudulentas de 2005, expropriado à mão armada terras de agricultores para vende-las a investidores estrangeiros em 2010 e sentenciado Eskinder Nega, um pacífico blogueiro, a 18 anos de prisão em 2012.

Mas doadores e filantropos ainda encontravam razões para elogiar e apoiar Meles. Em 2012, um relatório da USaid elogiou o governante etíope pelo “tremendo progresso”, que colocara a “economia e a sociedade [da Etiópia] em direção a padrão de renda mediano” (embora reconhecessem que parte do crescimento econômico recente do país tinha sido somente a recuperação depois de uma seca). Jim Kim, presidente do Banco Mundial, juntou-se ao coro em um discurso de 2012, em que celebrava as “mudanças transformacionais” da Etiópia, atribuídas a um governo “estável” que seguia “políticas econômicas prudentes” com “perspectivas de longo prazo.”

Bill Gates, cuja fundação gastou mais de 265 milhões de dólares no desenvolvimento da agricultura e dos serviços de saúde da Etiópia na última década, disse que tinha uma “grande relação de trabalho” com Meles, cujas políticas “obtiveram progressos reais e ajudaram a população etíope.” Gates fez essas afirmações depois da morte de Meles, enquanto abraçava o seu sucessor, o igualmente autocrático Hailemarian Desalegn, elogiado por Gates pelo seu “comprometimento com a continuidade das políticas do primeiro ministro Zenawi.”

Outro exemplo de cegueira nos doadores é a China. O relatório mais recente do Departamento de Estado americano apontou violações flagrantes de direitos ocorridos na China em 2013, inclusive “assassinatos extrajudiciais… desaparecimentos forçados e prisões incomunicáveis, além de detenções ilegais por períodos prolongados em instalações não-oficiais, conhecidas como ‘prisões negras’; torturas e confissões forçadas de presos; … uma política coercitiva de limitação de nascimentos que, em alguns casos, resultava em abortos forçados.”

Apesar disso, o Banco Mundial, sob o comando de Jim Kim, segue o comportamento comum aos doadores e ignora abusos como esses. Durante uma visita à China em novembro de 2012, Kim elogiou os líderes chineses por terem se lançado ao “desafio de atingir objetivos verdadeiramente ambiciosos.” O governo chinês fora “explícito ao lista-los” e teria “olhado para si em busca do que ainda havia a ser feito, bem como os grandes sucessos já conquistados.”

Atribuir o desenvolvimento aos autocratas é interpretar erroneamente as evidências sobre autocracias e o desenvolvimento. Testes estatísticos sobre dados históricos, coordenados por acadêmicos, constatam que a prosperidade ocidental se deve, em larga escala, a indivíduos gozando de direitos políticos e econômicos.

Mesmo assim, muitas agências internacionais e filantropos preferem adotar uma fantasia sobre a existência de um atalho autocrático para o desenvolvimento, a ser imposto por autocratas benevolentes, que implementariam soluções propostas pelos filantropos e pelas agências, como os remédios para a malária, as redes contra mosquitos, as cápsulas de vitamina A para o combate à desnutrição ou fertilizantes para a agricultura. Parte da sedução dessa ideia é resultado do papel central que ela destina aos doadores.

Aos doadores, é destinada uma voz importante sobre o futuro da África, enquanto dissidentes locais, como o blogueiro egípcio preso, recebem pouca atenção. Esses humanitários não vêem aquilo que ativistas pela democracia experimentam todos os dias: autocratas jamais serão naturalmente benevolentes. Governos só agem com benevolência quando são forçados a ser democraticamente responsáveis e cidadãos têm o direito de substituir governantes malevolentes por outros melhores.

Então, o que devem fazer os doadores? A democracia não pode ser imposta pela força, de fora, nem induzida ou administrada por especialistas ocidentais. As ajudas dos governos do ocidente e de organizações internacionais devem apoiar transições domésticas em direção à liberdade, como na Ucrânia, e não governos que oprimem e abusam dos direitos dos seus cidadãos.

A boa notícia é que a tendência no longo prazo aponta em direção à liberdade, com mais povos reafirmando os seus direitos. Os humanitários ocidentais devem apoiá-los na batalha das ideias e não lutar contra eles com justificativas espúrias e apoio financeiro aos seus opressores.

 

Publicado originalmente em inglês pelo The Wall Street Journal.

http://ordemlivre.org/posts/por-que-ajudamos-autocratas

Mr. Easterly, a professor of economics at New York University, is the author of "The Tyranny of Experts: Economists, Dictators, and the Forgotten Rights of the Poor" (Basic Books, 2014). Learn More about William Easterly >